Ser um multipotencial não só é normal, como essencial.

Lá pelos 5 anos de idade, você começa a ouvir aquela famosa pergunta: O que você vai ser quando crescer? A resposta geralmente é astronauta, bailarina, super-homem. Nessa fase, a resposta não importa muito.

Mas essa inocente pergunta começa a colocar na cabeça da criança o fato de que ela tem que escolher UMA coisa pra ser quando crescer. E geralmente é assim que acontece. Crescemos acreditando que o certo é escolher uma carreira e ir com ela até o fim.

A educação formal, o mundo dos negócios, o mercado de trabalho, todo mundo nos contou que é preciso escolher, afinal, o mercado quer especialistas.

Só que todos nós temos múltiplos interesses, habilidades e talentos. Porque devemos escolher só um? Não ser capaz de escolher essa Única Coisa pra fazer na sua vida pode ser muito frustrante, doloroso, e um grande causador de ansiedade.

Essa é uma das principais razões para evasão durante o ensino superior por exemplo. O desafio de escolher (e acertar) somente uma entre as opções que os vestibulandos cogitam, provoca esse problema.

Mas será que é realmente necessário escolher um único caminho? O mundo de hoje, com a ajuda da economia criativa, nos abre muitas portas. Uma delas, é a possibilidade de escolher fazer mais de uma coisa. Uma de cada vez, ou até mesmo, tudo misturado.

É claro que os especialistas são muito importantes para o mercado. Muitas pessoas são felizes escolhendo uma única carreira, se comprometendo a um único caminho e seguindo por ele.

Mas muitos de nós simplesmente não são assim. Muitos preferem aprender e desenvolver diversas habilidades diferentes e se dedicar a vários interesses diferentes. E isso é normal também.

Essas pessoas são as chamadas multipotenciais, ou generalistas, renascentistas, polímatas,etc.

O que é um multipotencial

Um multipotencial é o tipo de pessoa que tem múltiplos interesses e gosta de aprender, explorar e testar, sendo o oposto do especialista, que gosta e se dedica exclusivamente a uma única área.

O generalista é criticado por não se concentrar naquilo que faz, e tem medo de compromissos, porque ao escolher uma coisa sabe que vai precisar abdicar de outra.

Aqui vale a pena destacar a diferença entre um generalista, multipotencial, e alguém com vários hobbies. Um generalista é bom o suficiente pra gerar valor na áreas que tem interesse. Uma pessoa com vários hobbies e vários interesses casuais, no primeiro sinal de dificuldade em uma determinada atividade, logo desiste e parte pra outra.

Um multipotencial se esforça, aprende e desenvolve habilidades até chegar a um nível útil, em que essa habilidade é capaz de criar algo no mundo real.

A pessoa com multipotencialidades pode ficar por anos desorientado e desmotivado. Ela não é capaz de decidir o que fazer da vida pela quantidade de opções no seu cardápio. E escolher uma opção e deixar as outras pra trás seria a mesma coisa que cortar um braço.

“O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove.” – Fernando Sabino

Por isso acaba sendo um momento de grande revelação se identificar como parte desse grupo de indivíduos. Quando descobrimos que nossa vocação pra generalistas não é um problema, acabamos sentindo um alívio enorme.

E nesse mundo de constante ebulição e transformações em ritmo exponencial, os generalistas são essenciais pela sua capacidade de se adaptar, conectar pontos, e resolver novos problemas.

Portanto, abrace a sua multipotencialidade. Você além de não ter motivos pra ficar ansioso e preocupado por não saber escolher uma única vocação, é também um indivíduo de características fundamentais.

Especialistas ou Generalistas?

O debate “generalista vs especialista” é antigo e continua atual.

Durante e após a Revolução Industrial, a necessidade de alimentar um faminto mercado de trabalho, fez a educação também se industrializar. Produzir profissionais padronizados e especialistas em tapar um buraco específico, chamado vaga de trabalho, era o principal objetivo do sistema educacional. Aliás, esse ainda é seu principal objetivo, e é por isso que ele está completamente ultrapassado.

O modelo que surgiu da Revolução Industrial era do profissional que escolhia uma habilidade, se aprofundava nela e em seguida a executava dia após dia em troca de um contracheque. Porém, os tempos são outros.

Isso significa que chegou a vez dos generalistas? Sim. Mas isso não quer dizer que os especialistas perderam seu valor.

Não há melhor nem pior. Os dois perfis são necessários e se completam. O mundo precisa de flexibilidade dentro da especialização e também exige especialização dentro do abrangente.

Na verdade, o mundo hoje exige o especialista-generalista.

O modelo T de conhecimento

O culto ao especialista ainda é presente na nossa sociedade, mas há muito tempo já se fala no chamado Modelo T de conhecimento. (T-Shaped knowledge)

Imagine um T, onde sua base vertical (ou eixo y), indica seu conhecimento profundo, vertical e específico em determinada área. E sua base horizontal (ou eixo x), representa a abrangência do seu conhecimento e a sua capacidade de colaborar e contribuir em outras áreas alem da sua.

tshaped

Esse é também o tipo de profissional mais procurado no mercado hoje em dia.

O conceito T-shaped é utilizado no mundo corporativo desde a década de 90. A ênfase está na busca por profissionais multidisciplinares capazes de responder criativamente a demandas que surgem repentinamente em decorrência das transformações de cenários e mercados.

Tim Brown é CEO de uma das consideradas mais inovadoras empresas do mundo, a IDEO, e foi um dos responsáveis por popularizar esse termo. Ele diz que a espinha dorsal da cultura colaborativa da sua empresa são as “estrelas em forma de T”.

“IDEO é a empresa líder mundial em design, com escritórios em Palo Alto, São Fransisco, Londres, Boston e Xangai, entre outros lugares. Consistentemente classificada como uma das empresas mais inovadoras do mundo, a IDEO é famosa por seu método de inovação baseado em intenso trabalho de projeto interdisciplinar. Pra conseguir isso, a empresa há muito tempo pratica a arte da colaboração e o desenvolvimento de um certo tipo de talento: as pessoas em forma de T (T-Shaped people).”

Este termo, então, surgiu para caracterizar as pessoas que, apesar de terem conhecimentos profundos e específicos em determinada assunto, conseguem colaborar e integrar conhecimentos de outras áreas.

As pessoas T-Shaped dão contributos importantes em qualquer processo criativo, são capazes de “pensar fora da caixa” e de encarar os desafios de uma perspectiva geral. Além disso, a sua capacidade para colaborar em várias áreas ajuda a acelerar a mudança e a aprendizagem.

Dê uma olhada nesse breve lista de multipotenciais e T-Shapeds famosos e se inspire:

  • Leonardo da Vinci
  • Eleanor Roosevelt
  • Benjamin Franklin
  • Oprah Winfrey
  • Tim Ferris
  • Steve Jobs

Essa lista mostra que vale a pena se aceitar como um multipotencial e investir em um conhecimento em forma de T.

Conclusão

Não se preocupe com o fato de não achar uma única vocação pra sua vida. É normal querer se dedicar a vários assuntos diferentes. Só tome cuidado pra não ficar pulando de galho em galho e esquecer de se aprofundar em alguma área. Como vimos, o conhecimento especializado, profundo, também é importante.

E quanto maior a sua base horizontal e vertical do T, mais capacidade você tem de conectar pontos e consequentemente, de gerar mais soluções criativas.

Trabalhar pra aumentar o seu Tesão é uma boa analogia. Se o seu tesão, o que te empolga, é se dedicar a uma área e se especializar nela o máximo que puder até o fim da sua vida, vá em frente, mas não se esqueça de ser curioso e adquirir conhecimento em outras áreas também.

Mas se o seu tesão, entusiasmo e vocação estiver em aprender sobre várias coisas e abraçar os seus vários interesses, vá em frente támbém. Isso é perfeitamente normal e essencial no mundo de mudanças exponenciais de hoje.

Abaixo, fique com a TED Talk da Emily Wapnick (tem legenda), uma das principais embaixadoras dos multipotenciais. Aproveite pra tentar identificar se você é um desses e pra descobrir como tem um monte de gente assim e como não tem problema nenhum nisso. Como diz a Emily, “o mundo precisa de nós.”

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  • Felipe William

    Artigo E.X.C.E.L.E.N.T.E. Me ajudou muuuuito! Muito obrigado!

    • Edgar Oliveira

      Dá um alívio saber que não tem nada de errado com a gente né Felipe rs
      Obrigado por comentar. Fico feliz que tenha ajudado.
      Abraço!